O Ibovespa encerrou a semana sob forte pressão, em um movimento que combinou a reprecificação dos ativos após as eleições, a piora das expectativas para os juros e o quadro fiscal no Brasil, além de um ambiente externo de maior aversão ao risco. A correção ganhou força com a desmontagem de posições construídas antes do segundo turno e a consequente redução do apetite por ativos brasileiros.
No encerramento dos negócios, o índice chegou a se afastar da mínima do dia, marcada em 167.007,57 pontos, mas não conseguiu se sustentar na faixa dos 168 mil pontos, fechando em baixa de 0,75%, aos 167.921,80 pontos. Na somatória semanal, o recuo acumulado foi de 18,12%, configurando a maior baixa desde março de 2020, quando o índice cedeu 18,88%. No mês, a desvalorização acumulada atingiu 9,88%, o pior desempenho desde junho de 2022, período em que registrou queda de 11,5%. Com essa retração, o Ibovespa devolveu boa parte dos ganhos do ano, acumulando alta de 4,22% no acumulado de 2026. O giro financeiro da sessão totalizou R$ 31 bilhões.
Análise de mercado e cenário político-econômico
Lucas Castro, sócio-cofundador e head de renda variável da Lince Investimentos, avalia que o mercado continua em busca de um novo ponto de equilíbrio diante das incertezas em torno da futura política econômica brasileira.
“O mercado brasileiro segue pressionado pelos reflexos do resultado das eleições, que provocou uma forte reprecificação dos ativos diante das incertezas sobre a condução da política econômica e fiscal”, aponta o especialista. “Esse movimento é agravado pelo desmonte de posições de investidores que apostavam em uma vitória da oposição, provocando saída de recursos e mudanças nas expectativas para a trajetória dos juros.”
Por sua vez, a economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, Bruna Centeno, destaca que a pressão doméstica encontrou um cenário internacional igualmente desfavorável. Entre os fatores externos citados estão a alta do petróleo, renovadas preocupações com a inflação e com os juros globais, além da cautela em relação às ações de tecnologia após balanços decepcionante de empresas como Amazon e Intel. O petróleo do tipo Brent, por exemplo, passou a ser negociado na casa dos US$ 113 o barril, acumulando avanço de 15,7% no mês.
Perspectivas fiscais e setor corporativo
Para o economista e head de renda variável da Fami Capital, Gustavo Bertotti, a apresentação de um plano fiscal crível é condição fundamental para a estabilização consistente dos ativos financeiros no país.
“O que o mercado vai cobrar, independentemente de quem assumisse o País, é um plano crível para a questão fiscal. Enquanto isso não vier, acredito que o prêmio de risco continuará elevado”, declara Bertotti.
O especialista avalia que o mês de novembro exigirá cautela redobrada, especialmente com companhias sensíveis ao custo do dinheiro. Em sua visão, caso a curva de juros permaneça nos patamares atuais, empresas cíclicas e mais endividadas tendem a continuar enfrentando dificuldades. Como alternativa, o mercado deve direcionar o foco para ativos defensivos, que apresentem fundamentos sólidos, previsibilidade de receitas ou fluxos atrelados ao dólar.
Complementando a análise internacional, o gestor de portfólio do Banco Sofisa, Rafael Pastorello, pontua que o apetite global ao risco diminuiu ao longo da semana. Segundo ele, embora os bancos centrais dos Estados Unidos, da zona do euro e do Japão tenham mantido as taxas de juros inalteradas, as autoridades monetárias reforçaram alertas sobre os reflexos econômicos e inflacionários decorrentes do conflito no Oriente Médio.
Fonte original: Diário do Comércio











