Um carro que acelera, freia, muda de faixa, desvia de pedestres e faz baliza sem que ninguém toque no volante já é uma realidade nas ruas de cidades como Nova York, São Francisco e Xangai. Impulsionada por avanços em inteligência artificial, sensores e processamento de dados, essa tecnologia transforma a indústria automobilística mundial.
Em uma demonstração acompanhada pelo programa Fantástico, um veículo com sistema de direção autônoma percorreu trajetos urbanos complexos. O automóvel identificou semáforos, ciclistas, pedestres e outros veículos, tomando decisões de parada e retomada de movimento conforme o trânsito mudava. Ao final do percurso, o carro encontrou uma vaga e realizou a manobra de estacionamento sem intervenção humana.
A evolução dessa tecnologia tornou-se uma das principais frentes de disputa entre montadoras e empresas de tecnologia. Enquanto o foco tradicional da indústria era a potência e o desempenho dos motores, a prioridade atual está em baterias, chips, câmeras e inteligência artificial. "Não são carros, são inteligência artificial sobre rodas", resume o repórter Felipe Santana.
Como funciona a direção autônoma
Os carros autônomos utilizam diferentes tecnologias para interpretar o ambiente ao redor. Câmeras e radares registram informações sobre a via, os veículos, os pedestres e os obstáculos, enquanto sistemas computacionais processam esses dados para orientar as decisões de condução.
Na China, um dos veículos testados conta com 11 câmeras e recursos que permitem executar funções como abrir portas sem contato físico, refletindo a integração de componentes eletrônicos e sistemas inteligentes.
A direção autônoma é classificada em diferentes níveis de automação:
- Nível 1 e 2 (Assistência ao motorista): O veículo auxilia em funções específicas, como acelerar, frear ou manter a faixa. Os carros particulares testados na reportagem enquadram-se no nível 2, exigindo a supervisão constante do motorista.
- Nível 3 (Automação condicional): O sistema assume a direção em determinadas condições, mas o motorista deve estar pronto para retomar o controle quando solicitado.
- Nível 4 (Alta automação): O veículo opera de forma totalmente autônoma, mas restrito a áreas ou condições delimitadas.
- Nível 5 (Automacão completa): O carro opera sem qualquer necessidade de intervenção humana em qualquer cenário.
Desafios e dificuldades da tecnologia
Apesar dos avanços, a tecnologia ainda enfrenta obstáculos diante de situações imprevisíveis, como trânsito intenso, motocicletas, buracos, chuva e elementos incomuns que dificultam a interpretação do ambiente.
Uma pesquisa conduzida pelo especialista Alexandre Nascimento investigou o impacto de elementos inesperados na interpretação dos sistemas por câmeras. Os testes apontaram um aumento de até cinco vezes, em média, no risco de acidentes em determinadas condições experimentais.
A experiência em Nova York reforça esses desafios. Embora o veículo circule por vias movimentadas, o sucesso depende da capacidade do sistema de reconhecer corretamente os cenários do trajeto, mantendo a responsabilidade legal e a exigência de supervisão com o motorista.
Táxis sem motorista em operação
Além dos veículos particulares, a reportagem acompanhou o funcionamento de táxis autônomos nos Estados Unidos e na China, onde os passageiros solicitam viagens por aplicativo e embarcam em carros sem motorista ao volante.
Em São Francisco, o veículo circulou com desenvoltura, desviando de obstáculos e seguindo a rota programada. Em Xangai, na região de Pudong, o táxi operou em avenidas mais largas, apresentando uma condução mais cautelosa e realizando uma freada brusca em determinado momento.
Estes serviços funcionam em áreas delimitadas e dependem de sistemas treinados para condições geográficas específicas.
Disputa global entre China e Estados Unidos
A corrida pelos veículos autônomos integra uma competição mais ampla entre empresas chinesas e americanas pelo domínio da inteligência artificial, de semicondutores e da infraestrutura de dados.
A China destaca-se pela infraestrutura voltada a veículos elétricos: o país conta com mais de 5 milhões de pontos públicos de recarga, em comparação com cerca de 250 mil nos Estados Unidos. O mercado chinês também reúne grandes fabricantes de baterias e tecnologia em parceria com montadoras.
As diferenças de preço entre os mercados também são expressivas. Um modelo de táxi autônomo americano pode custar mais de R$ 600 mil, enquanto o veículo equivalente apresentado na China sai por cerca de R$ 180 mil, refletindo a estratégia de expansão comercial do setor no país asiático.
O papel central dos dados
Para operar de forma contínua, os veículos autônomos coletam e processam grandes volumes de dados por meio de câmeras e radares. A cada trajeto, novas informações são reunidas para aprimorar os algoritmos e desenvolver sistemas mais sofisticados.
A coleta massiva de dados levanta debates sobre privacidade, monitoramento e o destino das informações dos passageiros. Algumas operações contam com equipes humanas que acompanham múltiplos veículos simultaneamente, intervindo em situações que exigem atenção especial. Assim, a disputa pelos carros autônomos estende-se além da engenharia de tráfego, envolvendo o controle de dados e o protagonismo na inteligência artificial aplicada ao transporte.
Fonte original: G1











